Planetarização, ecopedagogia e educação para a justiça social

A educação para a cidadania global é marcada por um entendimento de laços globais e por um compromisso com o benefício coletivo em todos os níveis: local, comunitário, regional, estadual, nacional e global.

A busca pela educação para a cidadania global é uma expansão natural de discursos globais promovidos pelos sistemas da Organização das Nações Unidas (ONU) nas duas últimas décadas, incluindo a Década Internacional para a Cultura de Paz (2001-2010) e a Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável (2005-2014).

A educação para a cidadania global encaixa-se bem na busca por uma cultura de paz e na educação para o desenvolvimento sustentável, mas não é vista como uma alternativa para a cidadania nacional. Em vez disso, ela acrescenta valor à cidadania nacional, reforçando a robustez das democracias representativas e participativas ao redor do mundo e buscando garantir o pacto sociodemocrático pelos direitos das pessoas, e não apenas os direitos
de propriedade.

Existem várias categorias de cidadãos globais operando no sistema global. Por exemplo, políticos cosmopolitas e apoiadores do governo supranacional e da governança regional; a classe executiva de elite e as corporações que trabalham em negociações globais; ativistas transnacionais envolvidos em organizações pelos direitos humanos e pela democracia; indivíduos comprometidos com a economia global e a sustentabilidade ecológica.

A educação para a cidadania global é uma narrativa marcada por um entendimento de laços globais e por um compromisso com o benefício coletivo em todos os níveis: local, comunitário, regional, estadual, nacional e global. Neste artigo, enfatizo possíveis contribuições para a educação para a cidadania global na pauta pós-2015, incluindo:

  • a planetarização como globalização alternativa;
  • a ecopedagogia como ferramenta para transformar os sistemas educacionais;
  • a educação para a justiça social construída sobre a cidadania global.

​1. Por uma globalização alternativa: planetarização

Com Paulo Freire e colegas latino-americanos, criei em 1991 o primeiro Instituto Paulo Freire em São Paulo. Desde então, vários outros institutos foram desenvolvidos ao redor do globo. Nesses institutos, propusemos uma globalização alternativa, que chamamos de “planetarização”. Aqueles que se opõem aos múltiplos processos de globalização nos quais estamos todos inseridos não admitem que os processos de globalização estão aqui para ficar.

Freire descrevia a si mesmo como um “peregrino do óbvio” e como uma “criança que conecta”. Ambas as descrições aplicam-se pari passu à educação para a cidadania global. É óbvio que os múltiplos processos de globalização não podem ser revertidos; por isso, é imperativo que se trabalhe para uma alternativa à globalização. Da mesma maneira, o componente crucial das globalizações é o conceito de uma sociedade de rede, o que significa conectividade aprimorada.

Crescemos em nossa habilidade de nos conectarmos com pessoas ao redor do mundo, o que deveria ser considerado vantajoso para a planetarização, pois expande as possibilidades de políticas e educação relacionais. Em meu trabalho, critiquei a forma dominante de globalização — o neoliberalismo. Dois elementos-chave do neoliberalismo objetivam o confronto com o papel regulatório dos Estados democráticos (desregulação é o seu mote) e a promoção de privatização de serviços públicos.

Ao confrontar o neoliberalismo, precisamos promover uma planetarização que respeite e seja digna em relação a mulheres e homens, com base na ética de trabalho, na comunicação e na solidariedade. De fato, com base em uma ética de produção que respeite os recursos do planeta e que não seja baseada na ganância. Planetarização, por falta de um termo melhor, é uma categoria utópica. É um novo paradigma para proteger a Terra, que é um organismo vivo em constante evolução. Para alcançar a planetarização, precisamos encontrar meios para que todos nos organizemos em uma só comunidade e compartilhemos nosso lar.

Décadas atrás, o antropólogo argentino Rodolfo Kush lembrou um grupo de estudantes na Argentina de que, na língua indígena Quechan, as palavras para homens e mulheres significam “terra que caminha”. Não posso imaginar melhor definição para a nossa humanidade compartilhada com o planeta.

2. Por uma ecopedagogia em nossas salas de aula e universidades

O filósofo brasileiro Moacir Gadotti argumentou corretamente que os paradigmas de desenvolvimento clássicos estavam baseados em uma visão industrialista predatória antropocêntrica e em uma ética de individualismo possessivo. A ecopedagogia é a resposta projetada por instituições governamentais, redes da ONU, alguns governos e movimentos sociais que trabalham por um paradigma de sustentabilidade. A cidadania global busca preservar o meio ambiente limpando o ar, a água, as florestas e os oceanos, que são os pulmões do planeta e dos quais dependemos para nossa sustentabilidade e saúde. Como podemos proteger os recursos do planeta, particularmente os recursos não renováveis, e preservar a noção grega de Gaia como uma comunidade de comunidades?

A importância da ecopedagogia deve ser transmitida para nossas crianças e nossos jovens e velhos, em nossas escolas, por meio de educação formal e informal, mídia de massa e até em nossas refeições em família. Imagino quantas vezes os leitores deste artigo já acariciaram uma planta, apreciaram o bater de asas de uma borboleta no jardim, observaram com surpresa o desabrochar de uma flor, fornecendo-nos a fragrância que pode cativar nossos sentidos e nos deleitar com a simplicidade brutal da beleza da natureza. Quantas vezes os leitores deste artigo plantaram uma árvore em um jardim em seu quintal ou em uma janela ensolarada de seus apartamentos? Ainda temos um longo caminho pela frente para preservar o planeta. A ecopedagogia é uma opção.

3. Por uma educação para a cidadania global em busca de educação para a justiça social em nossas salas de aula e sociedades

A educação para a justiça social é o foco de luz sobre um mundo cercado por crescentes desigualdades e inequidades, confrontos não só imperialistas, mas também nacionais, religiosos e tribais. Professores e administradores já se perguntaram: o que é uma educação para a justiça social?

A educação para a justiça social é, em primeiro lugar e principalmente, a exploração, a análise e a crítica das desigualdades entre pessoas e em comunidades ao redor do mundo. Em segundo, com os recursos disponíveis para indivíduos e comunidades, a educação para a justiça social questiona o individualismo possessivo, que afirma que os talentos são o único produto dos dotes individuais. Portanto, os indivíduos não devem nada à sociedade por seus talentos e sua riqueza. Nessa perspectiva, a solidariedade é uma responsabilidade da filantropia ou caridade individual, e não da governança organizada que visa ao bem comum.

Em terceiro lugar, a educação para a justiça social promove a crítica de modelos de desenvolvimento que são antropocêntricos, androcêntricos e logocêntricos, ignorando a importância dos sentimentos, dos corpos e das atividades sensoriais. Ela critica modelos de desenvolvimento baseados na ganância. Finalmente, uma educação para a justiça social confronta o acomodamento da educação, insistindo que eduquemos para construir cidadania, e não simplesmente para a satisfação do consumidor.

Nossos alunos são nossos alunos, e não consumidores de um produto que vendemos na academia, nas escolas e nas universidades. Nossos alunos, assim como nós, seus professores, são cidadãos aprendendo a se tornar melhores cidadãos. Como cidadãos, eles têm direitos e responsabilidades. Se os estudantes fossem simplesmente consumidores, teriam todo tipo de direitos e apenas uma responsabilidade: consumir. Nós, professores, seríamos apenas empreendedores, e não educadores.

À guisa de conclusão

O Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, lançou a Primeira Iniciativa de Educação Global, em 2012, afirmando: “Quando colocamos a educação em primeiro lugar, podemos reduzir a pobreza e a fome, acabar com o potencial desperdiçado e esperar ansiosamente por sociedades mais fortes e melhores para todos”. Existem três pilares nessa iniciativa: colocar todas as crianças na escola, melhorar a qualidade da aprendizagem e promover a cidadania global.

Neste artigo, defendo algumas das dimensões da educação para a cidadania, inserindo-a nos esforços para um mundo melhor, a proteção do planeta, a defesa da paz como um tesouro intangível na humanidade, a ecopedagogia e a educação para a justiça social como modo de confrontar as crescentes desigualdades.

Deveríamos dizer às crianças e aos jovens da Terra que não teremos cidadania global a menos que formulemos uma narrativa para uma cidadania multicultural democrática como filosofia política democrática de governança com base em virtudes cívicas e também em status e papéis. Essa cidadania deve ser baseada em princípios que incluam respeito pelos direitos humanos; um movimento social global em direção à paz mundial; educação para a justiça social; compreensão da migração e da diversidade como parte e parcela do rico tecido social da sociedade moderna; necessidade de haver democracias cognitivas que facilitem acesso, qualidade, relevância e pertinência aos sistemas educacionais; reformas escolares que promovam a educação para a cidadania global.

Devemos garantir que nossos jovens e crianças entendam que os recursos são finitos, que nossas vidas são finitas e que devemos evitar a guerra e a violência a qualquer custo. Como diz o ditado grego a nós ensinado: “Em tempos de paz, os filhos enterram seus pais, enquanto em tempos de guerra os pais enterram seus filhos”.

Devemos dizer aos nossos filhos que não podemos ter uma cidadania global a menos que ela seja uma cidadania planetária baseada em uma identidade planetária. Este planeta é nosso único lar, e nós devemos preservá-lo por meio de recursos e preservação ambiental.
Devemos dizer a nossos filhos que essas metas não são fáceis de alcançar. Devemos educar nossas crianças, nossos jovens e adultos para múltiplas literacias, para o pensamento original e analítico, para a ciência e a tecnologia, mas também para a ética, os valores e a moral, porque estas são a condições necessárias para o empoderamento e a liberdade humanos. Devemos relacionar educação e cidadania global a uma vida saudável, justa, produtiva e bonita no dia a dia neste planeta.

É preciso adotar uma visão em direção à educação para a cidadania global; caso contrário, as pessoas e o planeta perecerão.

  • Carlos Alberto Torres é sociólogo e professor de Ciências Sociais e Educação Comparada na Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA). catnovoa@aol.com

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